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segunda, 17 de abril de 2017

Gildo Volpato

A Páscoa da Fênix: uma Ressurreição que depende de nós

Nesta época do ano, o mundo cristão celebra a sua maior data do calendário religioso – a Páscoa. Nela, celebra-se a ressurreição de Jesus Cristo, que, segundo narrações bíblicas, teria ocorrido três dias depois de sua crucificação, constituindo-se na principal festa do ano litúrgico cristão e, provavelmente, uma das mais antigas, surgida nos primeiros anos do cristianismo.

Do ponto de vista de algumas correntes da antropologia, a fé, sentimento ou intuição que origina a crença na existência de um Ser Absoluto,
Criador e Mantenedor de todas as coisas, deu-se em todas as épocas e em todos os lugares por onde despontou e se desenvolveu alguma cultura humana. É como se a simples percepção da beleza e do mistério do mundo externo e do desconhecido, e/ou a imensidão do espaço interno e do mundo dos sonhos, fizesse gerar, em cada indivíduo e em cada sociedade, esse sentimento de fé.

Do ponto de vista da sociologia e também da sociologia das religiões, o foco se estreita e se constrói uma contundente crítica às religiões já institucionalizadas e seu mau uso por suas lideranças, no sentido principalmente de explorar ou iludir os próprios fiéis e exterminar ou simplesmente maldizer os tidos como “infiéis, hereges, pagãos”, etc. Ao que parece, fé, religião, poder e política formam uma equação duvidosa que perpassa os tempos históricos.

Todavia, em sua origem, todas as religiões de raiz nascem de um contato com um Poder Superior que orienta o desenvolvimento de uma sociedade imatura e sujeita às agruras da luta entre o bem e o mal. Todas elas, na origem, em suma, querem um homem melhor, mais ético, mais solidário, mais comprometido com o coletivo e com a sua própria evolução psicoemocional e espiritual. Além do trio das religiões reveladas e monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), o Taoismo e o Budismo, além de alguns sistemas xamânicos lentamente descortinados pela antropologia, têm em comum a transformação e a melhoria do ser humano, bem como a ideia ou a utopia de um paraíso ou estado de plenitude que pode ser aqui ou em outra dimensão.


Ainda que estejamos em um Estado laico e a universidade trabalhe com o conhecimento científico, portanto, tem uma forma própria de interpretar e contribuir para melhorar o mundo, não há como negar a importância histórica dessa instituição milenar chamada cristianismo. Não obstante todas as suas subdivisões internas, incoerências, paradoxos e escândalos de alguns de seus membros, a mensagem central, desde a sua origem e sempre atual, é de paz, de amor ao próximo, de perdão, de altruísmo e de honestidade, o que é infinitamente oportuno e necessário em um mundo tomado pela ganância, corrupção, indiferença, violência, e banalização da vida.

O que fica mesmo para nós é esse símbolo de libertação, de renovação, de reinício, de superação, de deixar para trás uma condição inferior, injusta ou desagradável, de abrir as portas do presente para uma condição melhor.

O que fica é esse símbolo e esse sentimento de celebração e esperança. Portanto, todos nós precisamos, no mínimo, revisar a questão dos valores e refletir sobre como estamos sendo no mundo e com o que estamos contribuindo. Até que ponto estamos contribuindo ou sendo conivente com esse mar de lama e corrupção que se espalha no Brasil? Que tipo de sociedade nós queremos deixar para nossos filhos?

O que é realmente ter sucesso, ter êxito na vida? Se Páscoa é renovação, precisamos mesmo, talvez “mais do que nunca”, renovar nossos valores, extirpar da sociedade essa mancha predatória da corrupção e apontar um novo horizonte para as próximas gerações. Acreditar na ressurreição é também crer que o Brasil pode ser como a fênix e, assim, renascer das próprias cinzas. Entretanto, muito depende de nós. Que façamos e tenhamos uma Feliz Páscoa!